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vol 39 • 2025

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CARLOS RODRIGUES BRANDÃO. Um menino que lia o mundo

CARLOS RODRIGUES BRANDÃO. Um menino que lia o mundo

Ângela Biz Antunes, Janaina Abreu, Moacir Gadotti e Paulo Roberto Padilha, Instituto Paulo Freire

Para alguns, era simplesmente “Carlos”, para outros, simplesmente “Brandão”. Nosso companheiro de tantas jornadas nos deixou prematuramente. Difícil escrever sobre ele. É dolorido para todos e todas nós que convivemos tantos anos com esse ser humano tão querido. Mas é igualmente difícil não atender a um pedido de outro grande e querido amigo colombiano Raúl Mejía, que nos convida a essa viagem no tempo, a ativar lembranças, a atualizar emoções, a dar “Gracias a la vida” pela oportunidade, pelo privilégio da companhia de nosso grande companheiro de sonhos e de lutas.

Brandão, como Paulo Freire, foi fundamental na criação do Instituto Paulo Freire. Paulo partiu no outono de 1997 e Brandão no inverno de 2023. Na homenagem que prestamos à luta deste grande educador popular, relembramos, primeiramente, da amizade e do companheirismo entre eles. Brandão foi uma das figuras mais próximas de Paulo Freire, com quem trabalhou e compartilhou longa amizade.

Quando se apresentava, ele sempre o fazia dizendo que ele era um “educador popular”. Ao lado dessa credencial, gostava de destacar que era, também, “guia-escalador”, habilidade que adquiriu desde a juventude, especialmente nas trilhas e montanhas do Rio de Janeiro, sua terra natal, e de Minas Gerais, o seu lugar de coração, onde criou a “Rosa-dos-Ventos”, um pequeno sítio, na cidade de Pocinhos, construído para receber pessoas de todas os lugares interessadas em desenvolver ou vivenciar práticas de cultura popular.

A Rosa-dos-Ventos, onde estivemos algumas vezes convivendo e realizando diálogos fecundos com Brandão e pessoas que lá moravam, visitavam e realizavam atividades culturais, acadêmicas, ambientais, educacionais, entre outras, tornou-se uma casa de acolhida solidária, como ele próprio dizia, localizada no meio da mata da zona rural de Caldas, Sul de Minas Gerais. Lá, ele construiu várias casas, trilhas, com muitas flores, encantos... lugar de muitas cantorias, música, poesia, cultura e educação popular, como continua sendo após sua partida.

Residiu a maior parte de sua vida na cidade de Campinas, no estado de São Paulo, sobretudo em razão de seu trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde realizou a maior parte de sua longa vida acadêmica. Quem o conhecia pelas leituras de seus textos ou por proximidade pessoal sabia que a vocação e a prática de “educador popular” eram a sua marca mais evidente, seja pela forma com que dialogava com todas as pessoas, em uma conferência ou num boteco, seja pela maneira brilhante com que traduzia conceitos complexos da antropologia e da educação para a linguagem comum, em seus escritos. O que ele raramente revelava é que, na base de sua vocação maior, havia o psicólogo, o antropólogo e o cientista social, formações realizadas entre os anos de 1960 e 1980, respectivamente, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), onde graduou-se; na Universidade de Brasília (UNB), em que se tornou Mestre, e na Universidade de São Paulo (USP), onde se doutorou.

Intencionalmente, também, não se preocupava em falar de seus títulos de pós-doutorado, realizados em universidades estrangeiras, como a Universidade de Perugia (Itália) e Santiago de Compostela (Espanha), e os de honoris causa, recebidos pela Universidade Federal de Goiás (UFG) antropologia do simbolismo pela Unicamp.

Brandão, que publicou mais de uma centena de livros e outras centenas de artigos científicos, não era um acadêmico no sentido corriqueiro do termo. Ao fazer sua opção pela educação popular, sob a influência direta de Paulo Freire, procurava sempre realizar o clássico movimento ensino - pesquisa e extensão em sentido contrário. Para ele, um radical da educação popular, a vida concreta do povo era a grande mestra do conhecimento e não a universidade.

Assim, procurou, a todo tempo, mostrar que o marginalizado e a marginalizada, a poetisa e o poeta popular, a musicista e o músico da vila e dos becos, a ceramista e o violeiro, bem como as fazedoras de queijo caseiro das roças de tantos lugares deste país, não apenas realizam o cotidiano da história, mas produzem saberes autênticos, e, por isso, têm muito a ensinar aos ditos “doutores” do conhecimento.

Brandão procurou levar essa concepção para dentro da universidade, trabalhando continuamente com projetos de educação popular, e, também, para fora dela, envolvendo-se sempre em movimentos sociais como o ambientalismo, a luta pela terra, as inúmeras expressões da cultura popular etc. Particularmente, na questão da terra, durante muitos anos, realizou projetos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais (MST), para quem escreveu, dentre outras, uma pequena e valiosa obra, a História do menino que lia o mundo. Buscando traduzir para a linguagem popular e dedicando o trabalho aos “sem-terrinhas”, esse “livrinho”, que trata da vida e dos principais conceitos de Paulo Freire, tornou-se um clássico nas formações do MST. Esse é apenas um dos muitos trabalhos de grande inserção social produzidos por Brandão. O que é educação e O que é Método Paulo Freire são outros grandes clássicos do educador. Além de tantos outros escritos, Brandão acumulou inúmeras histórias de pesquisa e desenvolveu inúmeros projetos pelo Brasil e pela América Latina. Na década de 1980, organizou o livro A questão política da educação popular, publicado pela editora Brasiliense. Neste livro, há excelentes textos produzidos sobre os movimentos de cultura e educação popular do início dos anos de 1960. Destacamos a entrevista feita por Brandão com Antônio Cícero de Souza, também conhecido como Antônio Ciço, Tonho Ciço ou simplesmente Ciço, um velho lavrador de um sítio do sul de Minas Gerais. A entrevista revela dois seres humanos, o entrevistador e o entrevistado, expressando um profundo, inteligente, sensível e emocionante entendimento de educação e educação popular. Só Brandão poderia criar as condições para a sabedoria de Ciço chegar até nós. O diálogo estabelecido entre ambos é extremamente revelador do grande educador, antropólogo e psicólogo que ele foi.

As ligações afetivas e intelectuais de Brandão com Paulo Freire e com muitos freirianos e freirianas o levou a ser uma das figuras centrais do Instituto Paulo Freire. Compondo, desde o início, o Conselho Internacional de Assessores do Instituto Paulo Freire, Carlos Brandão atuou, intensamente, seja por meio de seus trabalhos de publicação, seja integrando diversos projetos de formação, nesses mais de trinta anos da instituição.

Além de livros, Brandão gostava de escrever cartas e bilhetes, tesouros de sabedoria e carinho com que brindava seus amigos e amigas. Durante muitos anos, ao final de cada ano, recebíamos cartas de Brandão, com um “balanço anual”. Nestas correspondências, ele compartilhava conosco emoções e alegrias vividas, lugares visitados, pessoas que conhecera, publicações feitas e renovava com todos seus amigos o compromisso com a construção de “mundo menos malvado” e nos incitava a fazer o mesmo. Com a Internet, sem abandonar os textos escritos à mão, passou também a enviar e-mails. Em 2021, no ano do centenário de Paulo Freire, usando o e-mail “Esta dirección de correo electrónico está siendo protegida contra los robots de spam. Necesita tener JavaScript habilitado para poder verlo.” (Itatiaia foi onde nasceu e 1940 a data em que chegou ao mundo), escreveu-nos o seguinte:

que antes de sair como um livro (e hoje existe uma excelente edição fac-símile publicada pelo Instituto Paulo Freire e mais outras instituições) que o Pedagogia do Oprimido foi publicado quase todo, como artigos, de uma revista chamada Cristianismo y Sociedad, na Argentina? Esta era a revista de uma instituição também hoje esquecida, e que foi muito importante entre nós juntos durante as ditaduras: Iglesia y Sociedad en América Latina. E, também, o Instituto Paulo Freire está com uma programação excelente ao redor dos mesmos "cem anos..."Como a gente pode ver, o simples perdurar com tanta energia boa o que foi semeado por Paulo Freire no comecinho dos anos 60 é bem um alento e uma esperança. Sobretudo em dias como os de agora. Penso que recordar essas memórias, tão essenciais para não apenas relembramos o "passado que passou", mas para repensarmos o “presente agora", seria um dos trabalhos mais essenciais ao redor dos `100 anos de Paulo Freire`”.

No contexto das homenagens a Paulo Freire mencionadas por Brandão, destacamos o registro em vídeo, pela iPF.Tv, em 03 de maio de 2021, do encontro intitulado “Memória e Presença de Paulo Freire”, que contou com as presenças dele e de Moacir Gadotti (https://www.youtube.com/watch?v=kOHhR6skfFU&t=33s).

Em 1992, ano em que o Instituto Paulo Freire foi registrado formalmente, Brandão estava fazendo uma palestra no Departamento de História da Universidade de Santiago de Compostela e nos mandou uma longa carta endereçada a Carlos Alberto Torres, Francisco Gutiérrez e Moacir Gadotti, aceitando o convite para participar como membro do Conselho Internacional de Assessores e fazendo algumas considerações sobre o caráter e a missão dessa instituição.

Recordamos aqui algumas passagens dessa carta. Diz ele sobre a criação do Instituto Paulo Freire:

“a ideia não poderia ser mais adequada e o momento não poderia ser mais oportuno. No entanto, creio que o Instituto Paulo Freire deve ter uma peculiaridade. Creio que o Instituto Paulo Freire deve ser um amplo, fecundo e generoso fórum de pessoas, entre pessoas; de ideias e entre ideias. Deve ser um fertilizador do inusitado. Deve congregar pessoas que ao longo de todos estes anos estiveram unidas e fraternalmente comprometidas com a prática e a circulação não de um credo ou de uma ‘escola pedagógica’, mas com um amplo projeto de liberdade através da cultura e da educação popular. Saibamos manter isto. Isto é, saibamos nos unir em torno de um espírito. Eu diria até mesmo, em torno de um sonho coletivo, generosa e fervorosamente comunitário que, ao contrário de outros, não acabou”.

Sem dúvida, essa sempre foi a linha que adotamos como rumo e prumo de nossas ações em diferentes projetos que ele mesmo ajudou a construir, particularmente no campo da educação, da cultura popular e dos direitos humanos. Disse ele num outro parágrafo:

“quero dizer que não se trata de pensar miudamente práticas específicas de educação com base nas ideias de Paulo Freire etc. Isto negaria o próprio Paulo Freire pela base. Pois, nada menos freiriano do de criarmos condições para estarmos pondo fraternalmente à prova a nossa própria capacidade de criar. De ousar mesmo. De abrir horizontes em nome da justiça e da igualdade. De estabelecermos pontos comuns através da experiência da diferença e da confrontação de opostos. Eu não gostaria de estar em um morno espaço de puros educadores comportados, ainda que contestadores, mas dentro de uma rede solidária de artistas, de visionários, de militantes e até de educadores. Pessoas seriamente inconformadas, eis aí”.

Sim, Brandão conhecia muito bem o que pensava Paulo Freire de seu próprio legado, estimulando as pessoas que o liam para não o seguir, mas, para reinventá-lo como ele mesmo afirmou. Brandão também nos deixou um enorme legado de luta e de esperança, em seus numerosos livros, alguns publicados pelo IPF, como Cultura rebelde, escritos sobre a educação popular ontem e agora, escrito em parceria com Raiane Assumpção e cursos pela EaDFreiriana, como Paulo Freire e a Educação Popular Diálogos freirianos, virtuais, vivos e virtuosos, gravando 25 videoaulas inéditas, repletas de poesia, lançado em 07/06/2021 (https://www.youtube.com/watch?v=klSLbkcvj80).

Mas Brandão inspirou e colaborou ativa e presencialmente com vários outros projetos estruturantes do IPF. Em 1994, proferiu palestra no encerramento do Programa Educação Continuada (PEC-São Paulo), em Ribeirão Preto, envolvendo 13 municípios da região do interior do estado de São Paulo, sob a coordenação do Instituto Paulo Freire. De 2007 a 2011 colaborou com o Programa Escola Cidadã de Sorocaba – SP, com palestra de encerramento do projeto, bem como na produção de 24 Cadernos sobre “Valores e Diálogos”, material de formação com orientações teórico-práticas par a promoção da cultura da paz na perspectiva da Cidade Educadora. Esteve conosco em várias edições do Fórum Social Mundial e do Fórum Mundial de Educação. Em 2009, esteve com Moacir Gadotti, Ângela Biz Antunes, Paulo Roberto Padilha, Janaína Abreu e outros(as) educadores(as) do Instituto Paulo Freire numa palestra/mesa redonda histórica, ao ar livre, no contexto do Fórum Social Mundial/Fórum Mundial de Educação, realizado de 27 de janeiro a 01 de fevereiro de 2009, falando sobre Escola Cidadã, realizado em Belém – Pará – Brasil Pan-Amazônico, cujo tema geral foi “Um outro mundo é possível”. Na ocasião, o auditório reservado para a atividade não comportava o número de pessoas interessadas em ouvi-lo. Decidimos, então, fazer a atividade ao ar livre. Não havia equipamentos, caixas de som, microfones, mas isso não impediu que a atividade fosse realizada. Brandão dialogou com os participantes por meio de um megafone. E todos ouviam e interagiam atentamente e acreditamos que tal sinergia aconteceu porque mais do que “falar a” eles/elas, ele “falava com” eles e elas.

Brandão também participou de vários encontros, no período de 2007 a 2011, do Programa Escola Cidadã de Osasco, um município próximo à cidade de São Paulo, colaborando neste período em Círculos de Cultura e palestras do Programa Educação para a Cidadania Planetária, dialogando com a intertransculturalidade e a intertransdisciplinaridade, com a Educação Cidadã, a Educação Integral, a Educação Popular e a Pesquisa Participante, da qual ele foi um de seus pioneiros. Deste trabalho, resultou o livro intitulado “Educação para a Cidadania Planetária: currículo intertransdisciplinar em Osasco” (2011). Brandão marcou presença importante, ainda, no livro “Reinventando Freire: a práxis do Instituto Paulo Freire, organizado por Moacir Gadotti e Martin Carnoy, em comemoração aos 28 anos de criação do Instituto Paulo Freire, para o qual produziu o artigo intitulado “Platão, Paulo e nós: uma viagem entre os tempos da cultura popular e da educação popular”, e concedeu entrevista à iPF.Tv em 19/09/2018, sobre o mesmo artigo (https://www.youtube.com/watch?v=1T1gBzG0JqY). Também, em 2018, ele foi um dos docentes do de reagir aos inúmeros ataques que vinham sendo feitos a Paulo Freire.

Brandão esteve conosco no I Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire realizado em 1998, um ano após a morte de Paulo Freire, e marcou presença ativa em vários outros encontros internacionais do Fórum Paulo Freire. Há tantos exemplos para serem citados. Seria difícil, nesta singela homenagem, fazer o registro de todas as colaborações e presenças de Brandão nos projetos, nas diversas lives produzidas durante todos estes anos com ele, na história do IPF.

Guardamos de Brandão seu jeito de ser dodiscente. Sabia que, onde se ensina, aprende-se ao ensinar. Sempre prestativo, cuidadoso, essencialmente dialógico, como deve ser todo educador popular, ensinando-nos pelo exemplo. Ele nos convidava a repensar a pedagogia como a arte de criar, gerar, partilhar e fazer circular saberes, como o território do encontro aberto a desafiar pessoas e grupos de pessoas a aprender e integrar conhecimentos, e de acolher informações apenas de forma complementar à construção pessoal e coletiva de saberes.

A escola não é um estádio e nem a educação é uma olimpíada. Nada de pódios onde sempre só cabem três: o terceiro, o segundo e o primeiríssimo lugar. Na educação defendida por Carlos Brandão, não há pódios. No lugar da individualização competitiva, a individuação cooperativa, abolindo ou, pelo menos, reduzindo, as premiações excludentes, os quadros de honra, os primeiros colocados e o silêncio a respeito de todos os outros. Carlos Rodrigues Brandão nos mostrava que há saber em todo ser, que o processo de aprendizagem de cada um deve ser valorizado.

Ele nos dizia para relativizar a tendência crescente a funcionalizar a educação para capacitar o competente-e-produtivo, em nome de nossa vocação de educadores, centrada no re-humanizar a educação para formar o consciente-criativo recolocando nosso foco da educação no diálogo constante da comunidade aprendente em nome de um saber transbordante e desafiador. Afinal, queremos produzir homens-máquinas para os poderes do mercado, ou pessoas humanas para a construção de uma sociedade generosamente humanizada?"

Esse era nosso querido amigo Carlos Rodrigues Brandão.

Para nós, que tivemos a alegria e a honra de viver e de conviver com Brandão, sua presença e suas lições não se encerram nesta partida. Elas continuam nas sementes de esperança, humildade, alegria e encantamento com a vida, saberes singulares desse grande mestre e amigo que não apenas ensinou, mas viveu “o método Paulo Freire”, como forma de ler e de amar o mundo, de refazê-lo na perspectiva da justiça social, da igualdade de direitos, da vida de qualidade e da qualidade de vida, como ele dizia.


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