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I Encontro de professores da Rede Emancipa

I Encontro de professores da Rede Emancipa

Domingo 22.05.2011. Faculdade de Saúde Pública da USP

programação:

14h – mística de abertura

14h20 – mesa de abertura:

15h – Café

15h15 - Grupos de discussão

16h25 – Socialização dos grupos e plenária de encaminhamentos

17h15 – Encerramento

Grita-se ao professor:
“Queria te ver numa fábrica!
O que? versos? Pensar? Utopias? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem.”
(...)
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso, da esperança.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos recomeçaremos o mundo,
fa-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó.

O Professor Operário[1]
Vladimir Maiakovski

Contribuição ao I Encontro de Professores da Rede Emancipa

“A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.”

(Paulo Freire – Cartas a Cristina, 1994)

Caro Professor, cara professora,

A vida é a arte do encontro. Com o Emancipa não poderia ser diferente. Encontros fazem parte do cotidiano da Rede Emancipa. São encontros semanais, na maior parte das vezes, e em alguns casos temos até a oportunidade de nos vermos a semana inteira. Tivemos 4 encontros políticos pedagógicos, os encontros dos 3 ”Dia na USP”, no dia de hoje pela manhã tivemos o I Encontro de Estudantes do Emancipa, entre muitos outros encontros que tivemos e teremos. Mas o encontro de agora tem o caráter especial de procurarmos nos compreender melhor enquanto educadores no nosso contexto particular.

Encontrar-se neste momento, é portanto, partilhar da condição de educador. E para o projeto de educação que compartilhamos, não há uma educação verdadeiramente coerente que não se proponha a transformar a realidade. Nossas indicações de leitura procuram refletir exatamente esse nosso compromisso ético-político: por esta razão apresentamos em primeiro lugar um texto do Paulo Freire sobre o papel do trabalhador social (e mais especificamente de educadores) no processo de mudança. Como agimos sobre uma experiência concreta de cursinhos, nossa outra referência de leitura foi um trecho da dissertação que trata da história do Cursinho Popular Chico Mendes (e consequentemente da própria Rede Emancipa).

Com isto buscamos fazer deste encontro um espaço de formação político pedagógico coletivo entre educadores da rede, e que ele seja um ponto de partida para novos encontros. Ponto de partida que não pode e nem consegue se esgotar numa tarde, mas que pode (e deve) ser continuamente multiplicado nas nossas reuniões de professores de cada cursinho, que por si são espaços propícios para nossa formação e partilha. Pode ser estendido através das trocas de experiências entre os professores das diferentes áreas. Pode ser estendido através das leituras sugeridas, que abrem uma porta para uma infinidade de novas portas do conhecimento. Mas que deve, sobretudo refletir na nossa atuação concreta enquanto agentes de mudança que somos (ou como o próprio Paulo Freire diz em seu Pedagogia do Oprimido, lideranças revolucionárias – não seríamos?).

Assim, a nossa programação começa com uma mesa com 3 eixos necessariamente articulados para educadores da rede emancipa. O primeiro é refletir sobre os desafios do nosso projeto politico pedagógico: inclusão ou emancipação? O segundo é a questão do acesso à universidade: nós (professores) que aqui estamos por vós (estudantes) esperamos. E, por fim, de que formas podemos agir para concretizar esse projeto de acesso à universidade: nossas formas de ação. Estes eixos devem nortear, junto com este roteiro, os debates dos grupos de discussão. A partir das questões apresentadas e de novas questões que com certeza surgirão, cada grupo devera procurar sistematizar o debate socializando com os demais.

Se o cursinho em que você atua tivesse que fechar por algum motivo, quais consequências esse fechamento teria? Qual a real possibilidade de incluir nossos alunos na universidade (podemos medir isso)? De que forma pode ocorrer emancipação no cotidiano dos cursinhos? Qual a emancipação que buscamos? O que isso significa e o que pretendemos com ele? De que forma o conhecimento que você trabalha em aula pode ser um instrumento de emancipação?

Estamos trabalhando com estudantes da escola pública, que tiveram acesso a um conteúdo escolar muitas vezes insuficiente para o volume exigido pelo vestibular, e diante disso nosso tempo é limitado, o que, naturalmente, nos deixa angustiados. Porém devemos encarar o conflito como motor das mudanças. Nosso primeiro desafio é perceber (e aceitar) que não vamos suprir estas lacunas em um ano. Então, qual o principal objetivo nisso tudo que estamos construindo?

Somos, antes de tudo, um movimento social. E isso exige de nós a compreensão de que não é apenas através de força de vontade ou empenho individual de cada um de nós, alunos e professores, que o caráter do vestibular e o perfil elitista dos ingressantes serão alterados, pois o número de vagas é sempre restrito. E por isso estamos juntos, em unidade. Para transformar os anseios individuais de mudança em uma ação una, coletiva. Se estamos na Rede Emancipa, é porque somos trabalhadores da mudança social, pois escolhemos isso pra nós (voltemos ao texto proposto, do Paulo Freire).

Ser educador e educadora de um movimento social com esta vocação exige um compromisso com a práxis emancipadora: Nós, que estamos dentro da universidade, temos a responsabilidade de pressionar do lado de dentro para que essas portas de abram para nossos alunos. Esta é uma questão mais profunda que está na gênese o Emancipa: lutar para que o acesso à educação e, antes disso, ao conhecimento, seja garantido para todas as pessoas. Mas, olhando para nossa situação peculiar, que tipo de ensino superior desejamos para nossos alunos? De maneira mais concreta? A Rede Emancipa luta cotidianamente para que as universidades estaduais paulistas implementem cotas sociais e étnicas. Isso porque, primeiro a Rede Emancipa nasce dentro da USP, com lutadores que lá estudavam ou se preparavam para estar. E também porque esta ainda se mantém como símbolo de poder da classe dominante, aristocrata e que é detentora exclusiva do “padrão USP de qualidade” como diferencial diante do restante do país inclusive. Por isso o vestibular se mantém como um funil cada vez mais estreito, pois as mudanças não param. Em contrapartida, o que foi reservado para nossos alunos são as vagas do ensino a distância, das universidades particulares de qualidade questionável e em cursos voltados para a capacitação profissional, sem compromisso com a produção do conhecimento, com a vocação criativa que está na essência de cada um de nós. Um ensino desumanizador, dado às migalhas em forma de bolsas ou programas de “estágio compulsório” (como o exemplo dos bolsistas do programa escola da família), na maior parte das vezes nos cursos que não eram o alvo dos sonhos dos estudantes. Entre um e outro, um projeto de expansão de vagas nas universidades federais, que também não cumpre o papel da democratização do acesso ao ensino público na medida em que cursos são abertos sem que os campus tenham estrutura completa para receber os estudantes – não há moradia, biblioteca, restaurante universitário, programas de permanência -, sem que o quadro de docentes esteja completo, e em alguns casos inclusive, onde são cobradas taxas de matrícula ou cursos pagos como pré-requisitos para determinadas disciplinas.

Não é isso que queremos. Não podemos aceitar fazermos parte de um grupo social privilegiado. E, não aceitando, não podemos também colaborar para a manutenção desta ordem injusta e desigual. Se nos resignássemos a instrumentalizar nossos alunos para competirem em uma prova, terem um bom desempenho e deixarem para trás outros 30 colegas que disputavam com ele a mesma vaga, estaríamos fortalecendo esta ordem.

A Rede Emancipa diz não a isso. Esta é a luta que travamos dentro e fora da sala de aula: discutindo com os estudantes, organizando atos e manifestações, agindo em parceria com o movimento estudantil e com a juventude de outros movimentos que também se organizam pela defesa da educação pública, apresentando projeto de lei em defesa de cotas sociais, e fazendo mobilização para concretizar esse projeto.

Tudo isso que apontamos acima nos traz aqui hoje. E com que propósitos de intervenção nesta realidade injusta voltaremos para nossos cursinhos, e - no caso de alguns -, para nossas universidades?

A partir destes comentários, provavelmente ficamos mais inquietos do que quando entramos. Então, vamos refletir a respeito a partir de algumas questões propostas:

  1. Qual o papel do espaço das aulas – dentro e fora da sala – na Rede Emancipa? Podemos perceber em quais pontos se aproximam e assemelham de um cursinho comercial?
  2. Quais objetivos pretendemos alcançar com nossos alunos? O quanto nos abrimos para pensar nossa prática docente a partir de suas demandas e especificidades?
  3. Os círculos são a essência da proposta da Rede Emancipa, pois são o espaço da construção coletiva dentro dos cursinhos. Dentro dele, estudantes e professores se enxergam horizontalmente e podem dialogar com equidade, sugerir, criticar, apontar idéias novas e saídas para problemas antigos, e principalmente, organizar-se e, nesta prática, politizar-se, perceber-se capaz, tomar consciência de seu papel de construtor. Porém não estamos habituados a conviver com espaços assim no dia-a-dia, por isso de início pode haver certo estranhamento ou mesmo indiferença com os círculos. Qual atenção temos dado a este espaço? Qual a importância deste para cada um de nós? Como podemos amadurecê-lo no nosso cotidiano e no convencimento dos alunos a respeito disso?
  4. O que você acha da criação de grêmios nos cursinhos? Acha importante que os estudantes participem
  5. De que formas podemos (re)organizar nossos currículos e programas de aula, de maneira que sejam factíveis aos alunos e contemplem os dois propósitos – ser crítico, e ao mesmo tempo instrumentalizar para o vestibular?
  6. Retomar a organização da frente de História e impulsionar a organização de outras frentes pode ser uma alternativa? Sim ou não? Sem uma condição estrutural favorável, como podemos nos comprometer com isso?
  7. Quais os meios podem ser utilizados para que haja maior comunicação entre os cursinhos? Que canais podem ser mais eficientes?
  8. Como podemos, mutuamente, ajudar a impulsionar os cursinhos com carência de professores e/ou defasagem de alunos? Como socializar com mais frequência as experiências bem sucedidas e as dificuldades?
  9. Como podemos fortalecer o espaço das reuniões pedagógicas em nossos cursinhos, de maneira que sejam não apenas um espaço burocrático, mas também de formação pedagógica e que nos auxilie a romper com a lógica escolar tradicional?
  10. Qual a opinião pessoal sobre vestibular, cotas, as formas tradicionais de acesso ao ensino superior e as chamadas “políticas de ação afirmativa”? Como podemos nos aprofundar nestas questões centrais para a Rede Emancipa e melhorar nossa intervenção prática a respeito, tanto dentro dos cursinhos como na universidade e na sociedade?
  11. De que formas e através de que instrumentos podemos afirmar cotidianamente nos cursinhos nossa identidade de movimento social?

  1. Releitura do poema “O Poeta-Operário”, de Vladimir Maiakovski. No poema original em espanhol consta: “Grita-se ao poeta: / ‘Queria te ver numa fábrica / O que? versos? Pura bobagem!’”. Também há uma adição no trecho “Nós polimos as almas/ com a lixa do verso”, onde foi acrescentada a palavra esperança. Estão em itálico as alterações que diferem do poema original.