Portada • Start Page >> Expandindo as fronteiras • Dave Richards
redes.png

N. 5 • '09

N. 5 Portada • Start Page
Rizoma freireano 5. Movimientos sociales urbanos y procesos de aprendizaje
Rizoma freireano 5. Aprenent ciutadania transformativa
Rizoma freireano 5. Urban socials movements and learning processes
Artículos • Articles
Producción de conocimientos, ¿cómo praxis de lucha política y social? • Cristina Reynals, Roxana Crudi, Alessio Surian
Producció de coneixements, com a praxi de lluita política i social? • Cristina Reynals, Roxana Crudi, Alessio Surian
A knowledge production, as practice of the political and social struggle? • Cristina Reynals, Roxana Crudi, Alessio Surian
Desalojos Cero. Video partecipativo e dimensione urbana • Stefano Collizzolli
Desalojos Cero. Vídeo participativo y dimensión urbana • Stefano Collizzolli
Desallotjaments zero. Vídeo participatiu i dimensió urbana • Stefano Collizzolli
Educação popular e movimentos populares: emancipação e mudança de cultura política através de participação e autogestão • Jade Percassi
Popular education and popular movements: emancipation and change of political culture through participation and self-management • Jade Percassi
Educación Popular y Movimientos Populares: emancipación y cambio de cultura política a través de la participación e autogestión • Jade Percassi
Pushing the boundaries • Dave Richards
Empenyent les fronteres • Dave Richards
Expandindo as fronteiras • Dave Richards
Empujando los límites • Dave Richards
Poema • Poem
Les Indes. Lézenn • Édouard Glissant
Documental • Documentary
Zero desalojos en la Republica Dominicana
Imprimir E-mail

Expandindo as fronteiras

Dave Richards, Reading International Solidarity Centre (Centro Internacional de Solidariedade de Reading) (RISC)

pdf

Um elefante inglês

Qual é a amável organização que ajuda a preparar uma aula de salsa ao ar livre para 250 pessoas, vende roupa interior em algodão orgânico confeccionada na Índia, acolhe festas de baptizado e participa no noticiário da televisão estatal russa? Para os comissários das obras de beneficência, o Reading International Solidarity Centre (Centro Internacional de Solidariedade de Reading) (RISC) é uma instituição de ‘educação para o desenvolvimento’ cujo objectivo é sensibilizar o público em geral para as questões do desenvolvimento social. No entanto, para os utilizadores dos 1400 metros quadrados de património classificado, esta organização mais parece o elefante de que nos fala um velho provérbio inglês, o qual cada cego descreve de acordo com a sua própria experiência. Na sua tentativa de estender a um público mais alargado questões como a globalização, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos, o grupo que dirige o RISC criou uma empresa social fora do comum e inovadora, que combina o desejo de ‘mudar o mundo’ com a realidade dos salários e do pagamento a fornecedores.

As actividades são muito abrangentes, espelho da necessidade de apoiar as comunidades locais e de lidar com assuntos globais que afectam todo o planeta. Incluem:

  • a gestão da maior loja de comércio justo do Reino Unido
  • a gestão do Global Café que serve comida premiada da Etiópia, vinhos e cervejas orgânicos de todo o mundo, e que oferece um espaço de exposições
  • a publicação de recursos didácticos
  • a gestão de um centro de conferências e salas de reunião, utilizadas por mais de 350 organizações comunitárias e empresas locais.
  • a disponibilização de espaços para escritórios a custo reduzido a organizações locais de voluntariado, empenhadas no desenvolvimento da comunidade e na educação global
  • a organização de eventos públicos que despertem a consciência para assuntos globais e forneçam uma plataforma para as vozes do ‘Sul’ global, incluindo oficinas de artes
  • a oferta a professores de formação em Cidadania Global
  • a oferta de experiência de trabalho e formação para o voluntariado
  • o desenvolvimento de uma horta urbana na cobertura ajardinada do edifício, o que trouxe ao Centro inúmeras equipas de reportagem televisiva, arquitectos e especialistas em planeamento, e o público em geral.

Fundação

A RISC nasceu em 1984, numa época de grande agitação. Ficara a herança dos graves motins que, em 1981, sucederam em várias das principais cidades do Reino Unido. Eram as consequências da política económica neo-liberal do governo de Thatcher para as comunidades carenciadas das cidades interiores, a tensão racial e a falta de confiança na polícia e na autoridade. Em 1984 o desemprego atingiu os 3.3 milhões e a greve do sector mineiro que se arrastou por um ano (1984-1985) desintegrou um dos mais fortes sindicatos do país, marcando o descalabro da influência política do movimento sindical. Em 1983, o acampamento de Mulheres pela Paz, em Greenham, que protestava contra os mísseis cruzeiro americanos instalados na base aérea de Greenham Common (perto de Reading) atraiu a atenção internacional e deu destaque ao movimento feminino.

Neste cenário, activistas do World Development Movement (Movimento para o Desenvolvimento do Mundo), sediado em Bracknell (uma cidade perto de Reading), garantiram financiamento dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido—com um programa para oferecer oportunidades de trabalho para desempregados de longa data—para um projecto de educação para o desenvolvimento a implementar nas escolas e comunidades no Berkshire. Sediado numa escola desactivada, em Slough, o World Education Berkshire (Educação para o Mundo) actuava com uma sala de aula móvel – um autocarro de dois pisos (verde e cor de rosa, as cores da juventude e da energia).

Juntou-se um grupo variado de desempregados de longa duração– mulheres influenciadas pelo acampamento pela paz de Greenham e feministas, homens e mulheres de minorias étnicas preocupados com as políticas raciais, bem como com outras perspectivas ‘alternativas’ – sexualidade, classe, meio ambiente... A partir destes variados interesses e experiências criou-se um leque de actividades de grupo para contrariar o cliché das imagens de africanos passivos e subnutridos, reforçadas pelo Concerto Live Aid de Bob Geldorf, em 1985. Desde a sua fundação, a RISC está empenhada numa análise, em termos da justiça e dos direitos, da desigualdade global e estratégias adequadas para lidar com o desfavorecimento, em vez do modelo de beneficência que permanece ainda na percepção popular.

Quando os fundos governamentais acabaram, um grupo de trabalhadores decidiu procurar uma sede para o centro, num esforço consciente para atingir um público diferente. Em 1987, com um subsídio de £1000, uma decrépita loja georgiana, a 5 minutos a pé do centro de Reading, foi transformada em escritórios, sala de reuniões comunitárias e loja que vendia desde artigos de comércio justo a artesanato e comida, T-shirts de campanha e livros sobre assuntos internacionais—estava criado o Centro Internacional de Apoio de Reading. ‘Apoio’, porque ‘Solidariedade’ poderia ser considerado demasiado radical e afastar potenciais patrocinadores.

Muitos outros centros de educação para o desenvolvimento surgiram durante este período, trazendo a agenda do desenvolvimento para a política ‘alternativa’, e por vezes radical, da raça, sexo e classe em parte resultante do impacte social e económico da aliança Reagan-Thatcher. Estes centros reflectiam a experiência e interesses dos grupos e dos indivíduos que davam a sua energia e o seu empenhamento para, com poucos recursos, transformar sonhos em realidade. Muitas foram as iniciativas de delegações locais das ONGs nacionais para o desenvolvimento, tais como a Oxfam ou a War on Want, nas quais se incluíram professores e voluntários doVoluntary Service Overseas (Serviço de Voluntariado no Ultramar) que estavam de regresso do estrangeiro e que queriam tirar partido da sua experiência de trabalho com comunidades pobres dos países em vias de desenvolvimento. Consequentemente, a maioria deles concentraram-se em apoiar o sector da educação formal – fornecendo às escolas e aos professores formação e recursos que trouxessem para o currículo questões sobre desenvolvimento. A publicação de pacotes didácticos tornou-se uma importante área de trabalho para a qual também foi relativamente fácil encontrar financiamento. O Reino Unido continua a ter uma boa reputação na produção de recursos didácticos para o desenvolvimento, talhados à medida currículodo currículo e que fazem uso de métodos interactivos para facilitarem o envolvimento de crianças e jovens.

O trabalho com grupos comunitários

Ainda que a RISC continuasse a apoiar o sector formal, normalmente não se empenhava na missão mais difícil que era o trabalho com grupos comunitários. Isto implica a construção de relações duradoiras, o que é bastante demorado. Um elemento importante no desenvolvimento da confiança foi a disponibilização a título gratuito de salas de reunião para grupos e a realização de eventos que reflectissem as suas preocupações e os seus interesses. Gradualmente foi emergindo uma fórmula de sucesso, apoiada por um grupo de voluntários dedicados por um crescimento estável do produto das vendas e ainda pelos apoios da Oxfam, da Ajuda Cristã e da União Europeia. O livro de inventários e balanço registou um aumento, os voluntários tornaram-se trabalhadores assalariados e a sala de reuniões estava reservada todas as noites.

Um outro factor-chave foram as oficinas e encontros temáticos sobre questões internacionais, dando voz a oradores oriundos de países em vias de desenvolvimento. Um dos pontos altos foi um encontro durante a Primeira Guerra do Golfo (1990-91) que reuniu dissidentes israelitas e iraquianos, e o representante, na Grã-Bretanha, da Organização de Libertação da Palestina, incluindo guarda-costas do Ministério do Interior e cães farejadores!

A RISC ganhou reputação por pôr em causa o status quo da educação para o desenvolvimento. O seu segundo projecto com fundos comunitários, o Focus for Change, esteve na vanguarda da crítica das imagens estereotipadas que grassavam nos media relativamenteaos Países em Vias de Desenvolvimento, incluindo as imagens para angariação de fundos usadas pelas ONGs[1]. Isto era reflexo de um debate mais amplo sobre a politica da representação que havia sido desencadeado em especial por grupos marginalizados pela sociedade convencional. A arena da politica racial tinha-se desenvolvido mais no Reino Unido do que em outros países europeus[2] e a prática educativa, que a RISC fomentava, de recorrer a imagens espalhou-se pelas redes europeias de educação para o desenvolvimento.

Um outro projecto, que resultou num conjunto de acções, confrontou a polémica questão da sexualidade[3]. Muitos especialistas acharam que não era correcto abordar o assunto da opressão homossexual no contexto da educação para o desenvolvimento. O desmantelamento de pressupostos estereotipados tem sido um fio condutor na maior parte do trabalho subsequente da RISC.

Outras novas iniciativas foram igualmente bem sucedidas. A RISC ajudou a criar o Reading Internacional Forum, uma rede com mais de 80 grupos locais com interesses a nível internacional, desde a Amnistia e a Greenpeace a várias associações comunitárias da Ásia, África e Caraíbas. Apoiado pelo Conselho Municipal de Reading, o Fórum organiza anualmente o Festival Internacional de Reading—duas semanas dos mais diversos eventos, que vão desde o comediante anarquista Mark Thomas às oficinas em escolas do secundário sobre direitos humanos. Uma outra importante iniciativa que daí derivoufoi a criação do Grupo de Apoio ao Refugiado de Reading (RRSG) em resultado de um encontro público da RISC sobre a situação internacional dos refugiados e a sua presença, muitas vezes escondida, na cidade. O RRSG está actualmente integrado nas infra-estruturas sociais da cidade, e os seus clientes reflectem a mudança no padrão da opressão em todo o mundo.

Durante muitos anos, o Fórum também organizou o One World Tent (Tenda por um só mundo) no Festival Womad (World of Music, Arts & Dance) (Mundo de Música, Artes & Dança) que foi uma parte importante da vida cultural de Reading até 2006. Exposições, oficinas, tendas e um palco que acolheu peças de teatro, oradores e músicos, deram uma nota mais séria ao hedonismo do longo fim-de-semana estival. De entre as memórias que se guardam desses dias encontram-se um boi indiano a lavrar o sítio, o Presidente da Câmara de Reading a tentar passar através de um campo de minas simulado, muito antes da Princesa Di descobrir as minas anti-pessoais, e a acima-mencionada aula de salsa.

Em 1993 a RISC tinha aumentado substancialmente a sua capacidade de alojamento. O volume de negócio tinha estabilizado e os escritórios estavam superlotados. Inicia-se a procura de uma nova casa... que por acaso acaba numa antiga livraria, graças a uma descida do preço de venda, a um empréstimo do ético Banco Triodos e a um subsídio da Corporação Habitacional (a propriedade incluía três pisos que foram vendidos a uma cooperativa de habitação).À partida parecia um acto de loucura. O projecto incluía salão de conferências, salas de reunião, escritórios, café, loja … no entanto, o engenheiro ficara fascinado com os belos exemplares de caruncho que viu, para além de uma colónia de pombos que tinha produzido uma fértil camada de estrume num dos cantos do edifício, de empresários independentes que tinham arrancado todo o cobre e chumbo do edifício, do facto de que do rés-do-chão de um edifício de três pisos se podia ver o céu azul (se o tempo o permitisse), e dos restos de uma rave, a que se acrescentavam os escombros deixadospor outros habitantes temporários. Resultado: o projecto era financeiramente insustentável.

35-39 London St

Em Maio de 1996 começou a re-colonização dos números 35-39 da London St. É melhor esquecer a história dos meses que antecederam a abertura, especialmente o canceroso reaparecimento do caruncho, inspecções de incêndio, construtores…Mas a 17 de Setembro, graças a dois dedicados construtores e ao esforço de centenas de voluntários que brandiram martelos, misturaram cimento e pintaram… a festa de abertura anunciou uma nova era e uma nova imagem de marca – ‘apoio’ passou a ‘solidariedade’, para reflectir de forma mais precisa o papel da organização. A agenda semanal dos trabalhadores incluía a preocupação com o estado dos sanitários dos homens, as carpetes sujas, a segurança dos bares nocturnos, os prazos finais das hipotecas, lado a lado com o planeamento de oficinas e campanhas comerciais.

Treze anos passaram e mal tem havido uma pausa para respirar. O Triodos tem sido cortejado para nos conceder outros empréstimoscom vista à renovação do café e conversão dos empoeirados sótãos em mais escritórios e de uma casa em biblioteca de artefactos. O modelo de uma empresa social com um grande número de intervenientes e o grosso dos seus rendimentos proveniente de subsídios, rendas de escritórios, aluguer de salas e comércio da loja e do café tem significado que o pagamento das hipotecas tem sido cumprido e o crescente número de empregados pagos, apesar dos altos e baixos da economia.

Não tem sido umpasseio pelo campo e tem havido algumas dificuldades resultantes do rápido crescimento da organização em novas áreas de trabalho, da falta de experiência aliada à estrutura de gestão colectiva e, às vezes, a falta de vontade para tomar decisões empresariais difíceis. Durante muitos anos, o café, com a rápida rotatividade de pessoal em part-time, menos empenhado nos ideais da RISC, foi um desperdício de tempo, energia e dinheiro em vez da esperada ‘galinha dos ovos de ouro’.

A RISC teve que se adaptar ao clima de mudança na concessão de apoios financeiros. O aumento da concorrência nos pedidos de apoio no sector do voluntariado, bem como as alterações de critérios nas concessões dos mesmos, particularmente da UE, também tiveram significado na flutuação da receita. Ainda que os valores fundamentais se tenham mantido inalterados – despertar as consciências para promover acções locais pela justiça global – acrescentaram-se novas áreas de trabalho às que já existiam e que estavam originalmente no âmago das actividades, nomeadamente a justiça nas relações comerciais e o apoio ao sector da educação formal. O espaço alargado do novo edifício permitia expandir o apoio do Centro a grupos comunitários e aceder a outras fontes de financiamento. Muitas organizações de voluntariado têm mais dificuldade em conseguir financiamento para a sua actividade regular do que para os projectos pontuais. A RISC tem tido a sorte de assegurar o financiamento a longo prazo das suas actividades regulares de apoio comunitário, através de uma instituição de beneficência local, a Earley Trust.

Avultados subsídios da Lotaria Nacional (iniciados em 1994) possibilitaram uma importante renovação do edifício, a construção de uma horta urbana na cobertura e a melhoria das instalações do Centro, especialmente no que diz respeito ao acesso a deficientes. A Lotaria também subsidiouum posto de trabalho a três anos que pudesse proporcionar formação e a oportunidade de experiência de trabalho aos voluntários em serviço nos escritórios, na loja ou em outros projectos da RISC.

Dimensão global e formação

Uma outra das grandes fontes de financiamento tem sido o Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID) criado em 1997 pelo novo Governo Trabalhista. Pela primeira vez, as actividades de educação para o desenvolvimento em comunidades, escolas, e no sector da educação formal receberam fundos governamentais como parte de uma estratégia para a ‘construção de apoio ao desenvolvimento’. O primeiro projecto subsidiado pelo DFID, Food for Thought (Alimento para o pensamento), utilizou o Café, como meio de sensibilização, com festas e exposições sobre temas globais, aliando palestras de oradores dos países em vias de desenvolvimento a falarem sobre assuntos que afectam os seus países, com comida tradicional.

Um dos principais objectivos do DFID tem sido introduzir a ‘Dimensão Global’ no currículocurrículo das escolas do Reino Unido a fim de assegurar que todas as crianças sejam instruídas sobre as questões do desenvolvimento para que possam “compreender as considerações das soluções globais que irão modelar as suas vidas ”.

“Incluir no ensino a Dimensão Global significa que se podem articular as questões locais com as questões globais. Também significa que se dá aos jovens oportunidades para examinarem de forma critica os seus valores e atitudes; para avaliarem as semelhanças entre os povos de todo o mundo, darem valor à diversidade, e desenvolverem competências que lhes permitam combater a injustiça, o preconceito e a discriminação. Esse conhecimento, competências e compreensão permitem que os jovens tomem decisões informadas sobre como ter um papel activo na comunidade global.[4]

Os oito conceitos-chave contidos no quadro de referência da Dimensão Global do DFID (Cidadania Global, resolução de conflitos, diversidade, direitos humanos, interdependência, justiça social, desenvolvimento sustentável, valores e percepções) são todos eles questões que têm sempre estado no âmago do trabalho da RISC. Isto significa que a organização está bem posicionada para pedir ao DFID subsídios que premeiem a criação de um impacte mensurável nas atitudes e comportamentos e nos benefícios tangíveis e intangíveis.

Dois projectos recentes ilustram o valor de se ter uma equipa relativamente experiente de educadores para o desenvolvimento com uma vasta gama de interesses e com um historial comprovado de implementação de projectos inovadores – as Global Schools (Escolas Globais) (GS) projecto fundado pelo DFID e o projecto Growing Our Futures (Plantando os nossos Futuros) (GOF), inicialmente fundado pela Lotaria Nacional. Em ambos os casos, os resultados obtidos excederam todas as expectativas, geraram interesse nacional e proporcionaram o aparecimento de outras iniciativas estimulantes.

Como sabemos que funciona?(How Do We Know It’s Working?)

Desde 2004, que a equipa de educadores da RISC tem estado empenhada no projecto GS com uma rede de escolas locais. Visava desenvolver um modelo para toda a escola que contribuísse para a cidadania global, que trabalhasse com todos os intervenientes na comunidade escolar de forma a integrar a dimensão global em todo o currículo. Visava tratar os problemas emergentes da abordagem ‘professor especializado’ adoptada pela maioria das escolas que tentam introduzir iniciativas governamentais tais como a Cidadania Global. Os estudos mostraram que a sensibilização e a compreensão para estas questões eram inexistentes ou estavam pouco consolidadas devido à falta de apoio por parte da administração, a uma formação inadequada ou ainda a uma comunicação interna pobre. Daí resultou que iniciativas como a Cidadania Global fossem marginalizadas.

Testes iniciais sobre o conhecimento e as atitudes em relação aos países em vias de desenvolvimento forneceram a base para o planeamento do currículo e formação para professores, pessoal auxiliar e membros do conselho em cada escola. Um segundo exame revelou que os objectivos da iniciativa estavam a ser atingidos com sucesso.

“Este […] foi o melhor período de formação que tivemos desde há muito tempo, com o pessoal inspirado pelariqueza dos recursos disponíveis na RISC e pelas estimulantes ideias sobre Cidadania Global que a equipa educacional partilhou connosco. Criticámos a nossa prática enquanto escola que reivindica ser inclusiva e direccionar-se para a consciencialização global. Saímos de lá celebrando muito do que tínhamos estado a fazer, mas com os olhos abertos para o modo como poderíamos ainda desenvolver a nossa competência.”

Directora de Escola, 2007

“Para algumas escolas, a Cidadania Global ficou imbuída em toda a instituição: com impacte no currículo, no ethos escolar e em toda a comunidade académica – alunos, professores, assistentes, directores, conselho escolar, pais e visitantes. Nestas escolas, as respostas às actividades de verificação indicaram mudanças nas atitudes dos alunos que aconteciam de acordo com os objectivos da iniciativa.”

“Contudo, em duas das seis escolas, provou-se que o desafio de empenhar todo o pessoal na iniciativa foi maior e a Cidadania Global não ficou imbuída na escola. As dimensões globais foram introduzidas por indivíduos em alguns assuntos, às vezes martelados nos planos curriculares existentes e muitas vezes sem considerar o cruzamento dos mesmos. Onde isto aconteceu, não houve alteração mensurável nas atitudes dos alunos, e as respostas a algumas actividades indicaram que os estereótipos dos alunos tinham sido reforçados.”[5]

Os resultados do projecto Como Sabemos que Funciona? (How Do We Know It’s Working?) um conjunto de instrumentos de medição da mudança de atitude, foram publicados em 2008. Depois de esgotada a edição inicial de 1500 exemplares, está em produção uma segunda edição. O modelo gerou interesse nacional, com algumas autoridades locais a fazerem grandes encomendas e uma série de cursos de formação de Desenvolvimento Profissional Contínuo (Continuous Professional Development) (CPD) para professores das ONGs, os quais registaram uma grande adesão.”

“A medição da mudança de atitude por meio de um conjunto de instrumentos é um aspecto da aprendizagem que apresenta um particular desafio para a avaliação. Trata-se de aprendizagem profunda com impacte naquilo que somos e no modo como escolhemos viver as nossas vidas. Esta aprendizagem revela os nossos valores ao longo do tempo enquanto membros de uma comunidade e enquanto cidadãos nacionais e globais. Para reforçar o seu lugar nas escolas é vital procurar meios de avaliar o seu impacte e juntá-los à nossa lista de estratégias de avaliação. Estes materiais foram testados e desenvolvidos através de uma rigorosa experiência, acrescentando bastante às boas práticas de avaliação da aprendizagem que realmente interessa.”

“A avaliação da aprendizagem envolve o formando como parceiro activo no julgamento do progresso da aprendizagem em direcção aos objectivos traçados. Os professores têm que ter em conta o progresso do formando em direcção a esses objectivos, para planear os níveis seguintes do caminho da aprendizagem. O diálogo partilhado criado por esta abordagem pode conduzir a decisões, tanto dos professores como dos formandos, sobre como desenvolver, o mais eficazmente possível, o conhecimento e a compreensão.”[6]

Judy Dyson, Assessora, Partnership Development & Extended Learning, Oxfordshire

Um projecto de acompanhamento, From the Margins to the Mainstream: making the global dimension sustainable (Do Marginal ao Convencional: tornar sustentável a dimensão global), foi recentemente aprovado pelo DFID. Isto irá para além de um investimento intensivo numa pequena rede de escolas, no sentido de se promover o modelo GS junto dos decisores políticos locais, que serão encorajados a responsabilizar-se por implantar e promover a cidadania e a dimensão globais junto do eleitorado, alterando a prática de escolas e professores. Para isso, é essencial compreender a diferença entre ‘uma qualquer cidadania global/actividade de dimensão global’ e ‘uma cidadania global/actividade de dimensão global eficaz’. O testemunho das escolas em relação ao impacte positivo de uma cidadania global/actividade de dimensão global eficaz sobre o conhecimento, as atitudes e a vontade de actuar será usado para as tomadas de decisão. Um indicador de sucesso é o nível a que os parceiros declaram o seu empenhamento na cidadania global/dimensão global, através das suas próprias publicações e websites; introduzindo-as nos seus programas de formação para professores, professores assistentes e directores; e promovendo-as através das suas redes regionais e nacionais. O sucesso deste modelo será espalhado através desta e de outras redes, na fase final do projecto.

Plantar os Nossos Futuros (Growing Our Futures)

Um segundo exemplo da evolução de uma ideia numa área de trabalho completamente nova, mas relacionada, é o projecto Growing Our Futures que teve a sua origem na solução de um repasse numa cobertura horizontal. A ideia de uma cobertura ajardinada foi a pouco e pouco ganhando força, à medida que pesquisas na internet revelaram as suas vantagens em termos de melhoramento do isolamento de som e calor, e melhoria do sistema de escoamento das águas da chuva. Tornou-se, rapidamente, óbvio que um jardim não só aumentaria o escopo do trabalho educativo da RISC mas também chamaria os patrocinadores. A Lotaria Nacional mordeu o isco e ofereceu-nos £34.000 a que acresceu um subsídio de £13.000 da SEED, um fundo que atribui a projectos ambientais dinheiros do imposto imposto ambiental sobre aterros.

O projecto para a área de 200m2 (32x6m) resultou de sessões de brain-storming no seio da Direcção: um jardim que pudesse ser um instrumento para estabelecer ligações entre o local e o global, incluindo o desenvolvimento sustentável, bem como a importância económica, cultural e histórica das plantas. Colaborámos com Paul Barney, um desenhador de permacultura local.

Permacultura define-se como a “concepção de sistemas sustentáveis de escala humana através da ecologia e do design. É uma filosofia e uma abordagem da utilização do solo que combina em comunidades produtivas intricadamente ligadas microclimas, plantas anuais e perenes, animais, solos, gestão dos recursos hídricos e necessidades do homem”[7]. O design é baseado nos princípios do forest garden preconizado por Robert Hart nos anos 70. Hart inspirou-se no ‘home gardening’ – um sistema de multi-culturas que está bastante difundido nos trópicos – que pode ter 13 camadas de vegetação. Home gardening é uma das mais antigas actividades de utilização do solo, que data de há 7.000 anos e que se desenvolveu como resposta às preocupações de um aumento populacional e uma diminuição dos recursos. Hart surpreendeu-se com a produtividade e diversidade destas pequenas courelas, e cita o exemplo dos 3,5 milhões home gardens no Kerala, Índia que fornecem a maior parte da alimentação a uma população de 32 milhões numa área com o tamanho da Suíça. Decidiu-se por estes princípios devido ao clima temperado de Inglaterra e chamou-lhe ‘forest gardening’. Todavia, horticultura, permacultura, agro-silvicultura, silvicultura, todas têm em comum o tema das policulturas perenes, que podem ser aplicadas numa diversidade de climas.[8]

O design tem em consideração todos os aspectos do local, edifícios circundantes e emprega exclusivamente os recursos locais. Por exemplo, o Centro produz grandes quantidades de lixo orgânico que são compostadas e ajudam a alimentar as plantas, minimizando ao mesmo tempo o lixo dos aterros. O papel de escritóriodesfeito em tiras tem um alto nível de carbono, enquanto os restos vegetais do Café e as saquetas de chá das salas de reunião têm um alto nível de azoto– a combinação perfeita para uma rápida decomposição. Em troca, as ervas e as flores são usadas no Café. A água dos telhados vizinhos é recolhida para o sistema de irrigação alimentado pelas goteiras e accionado por uma pequena turbina e um painel solar. A construção e pavimentação usam uma combinação de materiais reutilizados, renováveis e reciclados – tijolos velhos destinados ao aterro, caminhos feitos de ripas de madeira orlada com cordwood (pequenos toros) (lixo da Tree Surgeons[NT1] que, de outro modo seria queimado), as sebes e os canteiros são feitos a partir dos restos da limpezadas avelaneiras e dos salgueiros locais.

No plantio utiliza-se uma cuidadosa combinação de plantas herbáceas perenes, arbustos, árvores e trepadeiras, num esquema de cultivo que imita o ecossistema florestal das multi-camadas. Isto cria as condições que sustentam uma grande diversidade. Uma vez formados, os forest gardens precisam de pouca poda e dão muitas colheitas desde a Primavera até ao Outono. Podem incluir-se courelas de vegetais convencionais. A utilização de uma camada de 75mm de mulch[NT2] e de plantas rasteiras, como as ervas e os morangueiros, ajudam a conservar a humidade e a evitar ervas daninhas.

Desde o início, que o jardim pretendeu ser um instrumento para transmitir a um público mais vasto a mensagem local-global da RISC. Deste ponto de vista tem sido um sucesso esmagador. Tem cerca de 750 visitantes por ano, principalmente durante o Verão. Durante algum tempo, o portão permaneceu aberto de modo a que as pessoas pudessem apenas por lá passar, mas foi utilizado por junkies, e por isso agora só abre com marcação para grupos de escolas ou de jardinagem, e para o público em geral durante quatro fins-de-semana no Verão como parte do National Gardens Scheme (Plano Nacional de Jardins), que angaria fundos para a luta contra o cancro. Além disso, os grupos que utilizam as instalações para conferências e as salas de reunião da RISC socorrem-se muitas vezes do jardim como espaço para intervalo ou descanso das intensas actividades das oficinas. Alguns artistas também usaram o jardim nas suas actuações.

Os visitantes podem fazer uma visita guiada onde lhes são explicados os princípios orientadores do jardim e as estórias de algumas plantas favoritas. A principal deve ser o trigo Emmer, Triticum dicoccum, inicialmente domesticado no Crescente Fértil há 10.000 anos, e o fundamento de várias civilizações. Os materiais de divulgação melhoraram – painéis de informação resistentes aos UV e às intempéries, dísticos com informação sobre os vários usos e desdobráveis. Foram adicionadas ao jardim novas características que demonstram técnicas de jardinagem sustentável – sifões para vazar a água da banheira, sistemas de irrigação de baixo custo com utilização das águas da chuva, utilizando um depósito de 200 litros inicialmente utilizado para importar chutney[NT3] de manga da Índia e tubos de rega feitos de pneus reciclados.

O jardim tornou-se uma demonstração de vida urbana sustentável, uma ilustração de soluções práticas para os grandes desafios colocados pelas alterações do clima global e pelos picos de consumo excessivo de praticamente tudo (energia, água, comida…).[9] Ainda que as tecnologias de custos reduzidos e os métodos simples estejam bem implantados entre os defensores da vida sustentável, esta nova dimensão de uma horta a crescer na cobertura de um prédio no meio de uma cidade movimentada chamou a atenção dos media. Aparecem regularmente artigos em revistas de jardinagem e nas colunas sociais dos jornais de Domingo, e também em programas de televisão na Rússia, França e no Reino Unido.

Coberturas ajardinadas em espaços urbanos e cidades de transição

Os profissionais interessados em coberturas ajardinadas são outra classe de visitantes. Abrimos durante a Semana de Arquitectura do Royal Institute of British Architects (Real Instituto dos Arquitectos Britânicos) e recebemos um fluxo constante de estudantes, gerentes de instalações e outras pessoas interessadas no domínio da jardinagem sustentável – em particular paredes e coberturas ajardinadas, e ainda a drenagem urbana sustentável, aquilo a que chamam SUDs (Sustainable Urban Drainage). Mais recentemente tem havido um interesse crescente nos aspectos do cultivo de produtos alimentares nas coberturas ajardinadas, como parte de uma estratégia para promover estilos de vida saudáveis e reduzir os custos de transporte desde o produtor ao consumidor encorajando a agricultura urbana[10].

Um resultado inesperado é que a RISC tem sido agora arrastada para Iniciativas de Transição[11] e para a rede de agricultura urbana internacional[12], com o jardim em destaque em exposições e com teses apresentadas em conferências. Embora a promoção do desenvolvimento sustentável tenha sido sempre um elemento chave do trabalho da RISC, o jardim deu-lhe uma nova dimensão baseada no seu próprio compromisso com as comunidades locais. O elo entre soluções locais e globais tornou-se mais tangível e acrescentou força e credibilidade ao trabalho de solidariedade da organização.

O jardim foi incorporado no trabalho de educação formal da RISC. Foram concebidas actividades para crianças, que as encorajam a explorar o jardim e a descobrir a importância das plantas. Pedir-se-lhes que procurem a planta que as poderia envenenar é um caminho infalível para conseguir a sua atenção. As folhas da Phytolacca americana (caruru-de-cacho)enfraquecem o sistema imunológico, mas nos EUA as toxinas são neutralizadas pela cozedura e as folhas, semelhantes às do espinafre, são enlatadas e comercializadas como salada de poke, o que inspirou o êxito de 1969 de Tony Joe White, Polk Salad Annie, que fez parte do repertório de Elvis Presley em 1970. Uma das consequências do nosso trabalho educacional foi a construção de forest gardens nas escolas, inspiradas pelo modelo da RISC, nove até à data, mas todos plantados directamente no solo[13].

Os participantes em cursos de formação inicial para professores e de desenvolvimento professional contínuo, oferecidos pela RISC visitam o jardim como demonstração de como os jardins da escola podem ser utilizados para ir ao encontro das estratégias governamentais para escolas sustentáveis e de aprendizagem extramuros. Desde 2006,o Departmento para Crianças, Escolas e Famílias (DCSF) divulgou o seu programa para escolas sustentáveis.

“Desenvolvimento sustentável é uma maneira de pensar sobre como organizamos a nossa vida e o nosso trabalho – incluindo o nosso sistema educativo – de modo a não destruirmos o nosso recurso mais precioso, o planeta. Desde a pesca excessiva ao aquecimento global, o nosso modo de vida está a impor ao planeta um fardo cada vez mais pesado, o que não é sustentável.”

Cidadania global e currículo escolar

“Coisas que antes tínhamos como certas, como sejam o fornecimento seguro de energia ou um clima estável, já não nos parecem tão permanentes. É preciso ajudar as pessoas em todas as partes do mundo a encontrar soluções que melhorem a sua qualidade de vida sem acumular problemas para o futuro, ou sem que isso tenha um impacte injusto nas suas vidas. O desenvolvimento sustentável significa muito mais do que reciclar garrafas ou contribuir monetariamente para obras de beneficência. Tem que ver com pensar e agir de um modo profundamente diferente.”[14]

A dimensão global é uma das oito portas e assim o programa oferece uma oportunidade ideal para integrar a cidadania global no currículo. O programa para as escolas sustentáveis também está ligado com outra iniciativa governamental iniciada em 2006, o Learning Outside the Classroom Manifesto (Manifesto para a Aprendizagem Fora da Sala de Aula), que defende que a aprendizagem fora da sala de aula constrói pontes entre a teoria e a realidade, as escolas e as comunidades, os jovens e o seus futuros ”.[15]

“A educação não é algo que se feche dentro de uma caixa, mesmo quando essa caixa tem a forma de uma sala de aula. O hábito de aprender, um desejo de descobrir mais, desenvolve-se quando nos sentimos inspirados. O mundo fora da escola é rico em gerar inspiração, dando constantemente outra energia ao que acontece dentro da sala de aula. É a fonte de toda a nossa aprendizagem – acerca da nossa história, da nossa cultura, do nosso lugar no mundo e das nossas relações com os outros. Este fluxo em dois sentidos pode ser incluído na educação de todas as crianças, de forma descontraída e perfeitamente integrado no ethos escolar.”[16]

Como resultado destas iniciativas, as escolas vêem cada vez mais os seus jardins como uma sala de aula no exterior pelo seu verdadeiro potencial enquanto recurso para ajudar a divulgação de todas as áreas do currículo, bem como o enquadramento com dois outros importantes programas governamentais – o Vida Saudável (Healthy Living)eTodas as Crianças Contam (Every Child Matters)[17]. As hortas escolares estão a tornar-se muito populares, especialmente em escolas primárias. As organizações de beneficência nacionais de horticultura e jardinagem, tais como a Real Sociedade de Horticultura, a Associação para a Defesa do Solo e do Jardim Orgânico, bem como as iniciativas apoiadas pelo governo – Escolas em Crescimento (Growing Schools) e Aprendendo com os Jardins (Learning from Landscapes)– desenvolveram excelentes recursos online para ajudar as escolas com as competências práticas para cultivar frutos e vegetais bem como um guia de como integrá-los no currículo.

No entanto, ao percorrermos esses websites, notamos uma falha flagrante – a dimensão global. Houve algumas iniciativas, como seja o Jardins para a Vida, do Projecto Éden e a colaboração com Blue Peter da Missão Nutrição do Fundo de Apoio à Criança, que fornecem algumas ideias sobre como usar as hortas escolares como ponto de partida para a exploração de temas globais, mas há poucos recursos para ajudar os professores a explorarem as relações entre o cultivo dos alimentos por parte dos clubes escolares, as cadeias de abastecimento alimentar, alterações climatéricas e o pico da produção petrolífera. A agricultura escolar não vai além de como fazer a compostagem e de como cultivar vegetais saudáveis. Estas são importantes competências de vida que ajudarão a pôr à prova as nossas crianças, mas estamos a perder uma oportunidade de capacitar as crianças e jovens para a compreensão da escala dos desafios que a humanidade enfrenta, e do seu papel como parte das soluções.

Sir John Beddington, Conselheiro Cientifico do Governo, alertou recentemente para a possibilidade do mundo vir a ser consumido pela ‘tempestade perfeita’ a ocorrer cerca do ano 2030, como consequência de uma população global de cerca de oito biliões aliada ao aumento da procura de alimentos, água e energia, num cenário de mudanças climatéricas. Daí provavelmente resultará a migração em massa, conflitos civis, guerra pelos recursos e gente com fome.[18] A sua análise repercute a discussão de uma tese da Unidade Estratégica do Gabinete Ministerial de 2008 sobre questões da alimentação, desde as cadeias de abastecimento global ao consumir saudável e as implicações das alterações climatérias.[19]

Potencialmente, as hortas orgânicas da escola - produzindo localmente os alimentos usando composto feito a partir dos restos da cozinha, com recolha das águas da chuva recorrendo a materiais reutilizáveis e recicláveis – são um trampolim ideal para o desenvolvimento de um entendimento prático do que é um futuro sustentável. No mundo em que está iminente uma tempestade perfeita, a questão da segurança alimentar une os povos e as comunidades de todo o mundo.

Um cento para mudança promovendo a escola local-global/hortas comunitárias

A RISC iniciou recentemente dois novos projectos que aliam estes elementos. O projecto Alimentos para as Famílias (Food4Families), fundado pela Grande Lotaria, irá criar 15 novas hortas escolares/comunitárias em Reading durante os próximos três anos. Isto irá tocar vários pontos – as crianças e os seus pais irão adquirir competências na área do cultivo, introduzir a cultura de frescos na sua dieta e aprender sobre a vida sustentável, enquanto as escolas irão integrar a sala de aula no exterior no seu currículo através de actividades práticas. O progresso no terreno já começou a demonstrar a validade do modelo em atingir um dos objectivos da Escola Sustentável– a coesão comunitária. Na palavras de uma directora que participa no projecto, “temos tentado envolver os pais há vários anos. Pela primeira vez, o projecto da horta motivou os pais a juntarem-se aos seus filhos nas actividades escolares ”. Isto foi repetido por uma das mães, “É bom que as crianças e os pais se envolvam – podemos fazer coisas em conjunto o que também se reflecte em casa.”

A Global School Gardens Network é um outro projecto de três anos, fundado pela DFID, mas de alcance nacional. Tendo como parceiros Garden Organic, Food for Thought e a Federação de Quintas Urbanas e Hortas Comunitárias), a RISC irá trabalhar com hortas escolares piloto por todo o país, explorando os modos de fazer a ligação entre o cultivo de batatas ou feijões na sua horta e cultivo de plátano ou mandioca noutras partes do mundo. Como é que as crianças/povos de todo o mundo podem assegurar o crescimento das suas plantações? Qual o impacte das alterações climatéricas sobre elas? A liberalização do mercado oferecerá novas oportunidades para aumentar os rendimentos num mercado globalizado ou representam uma ameaça com as importações mais baratas? Um website irá difundir exemplos de boas práticas e recursos para apoiar esta dimensão global.

Um elemento-chave será realçar exemplos de quintas sustentáveis nos países em vias de desenvolvimento, por exemplo a mudança bastante bem sucedida para a produção orgânica que ocorreu em Cuba por força do colapso da União Soviética e os seus baratos abastecimentos de petróleo. Do mesmo modo que Robert Hart e um outro permaculturista se inspiraram na rica herança das agriculturas tradicionais, nós temos muito que aprender com as comunidades que se viram forçadas, por razões históricas ou geográficas, a tirar o máximo partido de recursos limitados e que trabalharam com sistemas naturais em vez de lhes tentar impor o seu poder industrial.

Durante os últimos 25 anos, a RISC passou de um projecto a uma organização que contribui para iniciativas para um mundo melhor de âmbito local, nacional e internacional. É um estudo de caso em como uma organização pode dar continuidade aos seus objectivos não obstante as mudanças das condições políticas e económicas. Achave para a sua sobrevivência durante os tempos difíceis tem sido o compromisso do grupo dirigente, a sua força de vontade em sacrificar o seu tempo e dinheiro por um bem maior, a capacidade de continuar a expandir as fronteiras do que constitui a ‘educação para o desenvolvimento’, e formular projectos inovadores que atraiam patrocinadores. A medida do seu sucesso é o impacte do seu trabalho, desde o facto de Reading se ter tornado uma cidade de comércio justo até ao facto de o jardim na cobertura ter sido nomeado para o troféu 2009 do Observer Ethical Garden. Muitos ‘Centros para a Mudança’ semelhantes criados nos anos 90 por activistas sociais em todo o país não foram tão felizes.

À medida que o grupo original de pioneiros alcança a idade da reforma a questão que se coloca é: como manter a visão, energia e empenhamento que levaram tão longe a organização, de forma a dar resposta aos enormes desafios que o futuro nos reserva? Este é um desafio enfrentado por muitas outras organizações que emergiram da luta contra o neo-liberalismodo período Thatcher/Reagan,do feminismo e do ambientalismo. Este poderá ser o maior desafios de todos.


[1] Sally Meachim, Dave Richards & Olukemi Williams Focus for Change: class, gender and race inequality & the media in an international context RISC, 1992

[2] Peter Fryer Staying Power: The History of Black People in Britain Pluto Press 1984

[3] Andrew Brearley, Anne Cronin & Barbara Lowe, Human Rights for All? a global view of lesbian and gay oppression and liberation, RISC, 1992

[4] Developing the Global Dimension in the school curriculum DFID, DfES, QCA and DEA, March 2005

[5] Barbara Lowe, Embedding Global Citizenship in Primary and Secondary Schools: developing a methodology for measuring attitudinal change , in International Journal for Development Education and Global Learning, Vol 1, No 1 October 2008

[6] Liz Allum, Barbara Lowe & Louise Robinson How Do We Know It’s Working? a toolkit for measuring attitudinal change in global citizenship from early years to KS5, RISC 2008

[7] Bill Mollison and Reny Mia Slay Introduction to Permaculture, Tagari Publishers, 1991

[8] Robert Hart Forest Gardening Green Earth Books 1996

[9] Richard Heinberg Peak Everything New Society 2007

[10] Edible Cities - A report of a visit to urban agriculture projects in the USA, London Food Link 2008

[11] Rob Hopkins The Transition Handbook: From Oil Dependency to Local Resilience Green Books 2008

[12] Andre Viljoen, Continuous Productive Urban Landscapes: Designing Urban Agriculture for Sustainable Cities, Architectural Press, 2005

[13] Dave Richards, The Outdoor Permaculture Classroom, Permaculture Magazine, Number 54, 2007

[14] National Framework for Sustainable Schools: the eight doorways DfES 2006

[15] Learning Outside the Classroom Manifeto DfES, 2006

[16] Out of-Classroom Learning Real World Learning Partnership, 2006

[17] Every Child Matters: Change for Children é um programa governamental do Reino Unido, lançado em 2004, no seguimento do relatório sobre a morte de Victoria Climbié, a jovem que foi horrivelmente abusada e torturada, e eventualmente morta pela sua tia-avó e o homem com quem elas viviam. É “um modelo nacional para programas de mudança local para providenciar serviços em torno das necessidades das crianças e jovens de modo a maximizar oportunidades e minimizar riscos. Os serviços que chegam a todas as crianças e jovens desempenham um papel crucial na alteração do foco de lidar com as dificuldades nas vidas das crianças para impedir que as coisas corram mal à partida. A transformação de que precisamos pode apenas nascer através do trabalho conjunto dos dirigentes locais, em forte parceria com as comunidades locais, num programa de mudança.”

Healthy Living Strategy, lançada em 2008 pelo governo do Reino Unido para apoiar todos a fazer escolhas saudáveis que reduzam a obesidade, especialmente entre crianças. O objectivo é que em 2020 a tendência do aumento da obesidade infantil seja revertida para níveis registados em 2000. Lutar-se-á igualmente contra a taxa de obesidade nos adultos.

[18] Tese apresentada em SDUK 09: Time for Change 19 March 2009

[19] Cabinet Office Strategy Unit Food: an analysis of the issues January 2008


[NT1]A Tree Surgeons Ltd é uma empresa de prestação de serviços de Arboricultura com sede em Londres, considerada como uma das três maiores empresas do ramo, no Reino Unido.

[NT2] Cobertura orgânica do solo, constituída pelo produto resultante da trituração de material lenhoso.

[NT3] Acompanhamento agridoce para carnes feito de manga.


Traducción: Isabel Tavares

Revisión: António Lopes